"Olha o ramo da espiiiga!". O pregão e os raminhos alinhados fizeram-me sorrir logo de manhã. Mas a seguir veio a nostalgia. Não sou de cá. Sou de um sítio onde a espiga não se compra na rua quando o vermelho aceso faz sobrar um minuto para não correr. Sou de um sítio onde a espiga se apanha no campo. Não se paga por ela. É apanhada meticolosamente em família e depois é a mãe quem compõe o raminho, com o carinho de uma mãe. Lá nada está no raminho por acaso, tudo tem uma simbologia. E de repente, a infância... É que lá de onde sou as crianças sabem a que cheira a terra molhada. Quando se descalçam chove areia dos pés. Ainda brincam, sujam-se e se calhar continuam a provar azedas. Lá ouve-se "bom dia" e "boa tarde" e as pessoas têm um nome. Senão têm uma alcunha, um parentesco (são filhas de... ou netas de... maridos, mulheres... primos do marido da filha de...), senão não são de lá... Lá de onde eu sou também se vê o céu quando se olha em frente, não é preciso olhar para cima.
Estive onde não podia deixar de estar, e vim-me embora rapidamente. Sou daqui.
Lisboa, 21 de Maio de 2009.

2 comentários:
eu também sou dessa terra magnifica.
Cativa quem la vai, e quem gosta de ver gente genuína, não deixa de querer lá voltar.
Sou de lisboa mas tb uma parte de mim está em salvaterra.
ou não fosse de lá uma das melhores pessoas que conheço.
guga
Também não sou de cá, de onde eu sou a espiga também se apanha no campo e não se paga por ela. Mas também não deixei de sorrir ao ouvir gritar "olha a espiga".
Beijinhos,
Neuza
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